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A apologia da crise (do desconforto e do diálogo como paradoxo)

Aparentemente, o título deste texto é ele próprio um evidente paradoxo: em tempos de crises continuadas a diversos níveis: da vida quotidiana, ao quotidiano das imagens, escrever sobre a apologia da crise é, só por si, uma espécie de provocação. Não se trata, obviamente, disso. Antes, de tentar entender como a crise pode ser potenciadora de desenvolvimentos. Falamos, evidentemente, e de novo, do chamado momento crítico, analisado por Deleuze e amplamente conhecido. Se, na exposição anterior, a principal preocupação estava ligada à ideia de contaminar e contaminar-se, então, agora, trata-se de aprofundar as questões anteriormente analisadas.
O mundo em que vivemos é todo ele um enorme paradoxo: um mundo que pretende ser global e, simultaneamente, vai-se fechando aos poucos e poucos. Cada vez existem mais muros e fronteiras. Cada vez existem menos diálogos...aparentemente, uma das mais interessantes actividades dos humanos: dialogar, está a transformar-se lentamente em desconforto cada vez maior. Por isso, talvez, a nossa contemporaneidade comece a ser conhecida, também, como selfie reality...
A exposição que agora propomos tem uma particularidade que se afirma como um claro desafio: trata-se de uma casa museu de uma personalidade da cidade, com todas as condicionantes que tal situação impõe. A principal das quais é a condição necessária de dialogar: com o espaço, desde logo; com a personalidade em causa; com a história e com a memória...ou não.
O momento crítico, portanto, formaliza-se aqui na condição voluntária do diálogo ou, pelo contrário, na sua recusa. Um desconforto instala-se...a crise que aparece. Uma lógica fronteiriça. Um paradoxo.
Mas as fronteiras são significantes vazios que se encontram em constante evolução. O conceito de fronteira alterou-se em definitivo. A explosão rizomática e global alterou a relação de tangibilidade que fornecia os elementos necessários à sua existência. A fronteira constitui-se na nossa contemporaneidade como ente fantasmagórico. A sua existência é paradoxal. O carácter multinacional e multidisciplinar exigido pelo “capitalismo (ou qualquer outro nome que se queira dar ao processo que domina hoje a história mundial)” (Agamben) determina uma permanência existencial que se processa segundo um nível de mediação mais do que de intransponibilidade. Ao poder multinacional colocam-se duas questões que à primeira vista se confundem com o paradoxo: ao mesmo tempo que anula a distância em favor do desenvolvimento tecnológico, favorece o local como noção necessária à sua existência. A sociedade de homogeneidade absoluta apresenta-se como o paradigma da heterogeneidade e é esta assimilação dos dois conceitos que forma a totalidade do espaço contemporâneo constituído sem exterioridade. Daí o carácter fantasmagórico atribuído à fronteira. E, contudo, elas estão aí, de novo, bem presentes...outra vez o paradoxo.
Existe, no entanto, a necessidade de entendimento do percurso temporal desenvolvido até hoje. Da necessidade absoluta de fronteira —falamos obviamente em âmbito alargado ao artístico— até à sua não-existência corporizada na noção de mediadora. Só assim se poderá, efectivamente, possuir um conjunto de premissas teóricas que permitam o entendimento clarificado no novo mapa espacial. Mais do que implosão da noção de fronteira, colocaremos a questão segundo a noção de uma forte explosão que indetermina a sua existência tornando-a, deste modo, difusa. Mas a totalização global, ela própria, vítima do seu carácter paradoxal torna-se, assim, aos poucos cada vez mais totalitária e menos global.
Ou seja, a fronteira pode apresentar-se como limite, mas, também, como lugar de passagem: como lugar de desconforto ou como lugar de diálogo. Hoje, parece cada vez mais mimetizado o ensimesmamento personalizado pela tecnologia do selfie, no ensimesmamento de um mundo paulatinamente mais fechado ao diálogo e à passagem. Ainda assim, as possibilidades em jogo são imensas e a arte que resgata continuamente a sua própria espacialidade criando e destruindo fronteiras, fomentando e ignorando diálogos mantém a sua força intrínseca através de uma espécie de agonia / crise, paradoxalmente criativa, a que, no nosso presente, designamos como arte contemporânea. Um território eminentemente plástico e líquido, como diria Bauman. Um espaço de produção de pensamento que potencia uma posição de partilha (o diálogo por oposição à fronteira) mas que, paradoxalmente, ou não, se oferece sempre encriptada e singular (a fronteira por oposição ao diálogo). A individualidade inerente ao gesto artístico convoca, também, a perspectiva de uma temporalidade que, todos o sabemos, hoje, impõe outras fronteiras. Daí a necessidade da arte em recorrer à memória e à história como forma de fazer saber. De trabalhar em âmbito alargado, quer dizer, sem a imposição fronteiriça da univocidade temporal do presente. Os diálogos alargam-se, assim, ao tempo. Condição essencial para a sobrevivência da própria arte. Estar na Casa Museu Abel Salazar é trazer à tona todas estas noções e especulações teóricas e transformá-las em forma, essência da arte e do fazer dos artistas. Estar na Casa Museu Abel Salazar é ter presente a crise e a coragem da sua apologia, isto é, convocar a memória histórica do lugar e da personalidade, também estes em permanente crise: por um lado espacial, pelo outro temporal e política.
Estar na Casa Museu Abel Salazar é experimentar o desconforto da ausência essencial do chamado “white cube”, sacro santo espaço da modernidade artística e, assim, ter que encontrar soluções, as mais variadas, onde o diálogo – noção, também ela elástica e nunca rígida – joga um importante papel. Nem que seja pelo grau do oximoro experimentado no desconforto de o ter que realizar. As expectativas serão tanto mais elevadas quanto o embrenhar das obras nesta crise permita o aparecimento de novas possibilidades, de surpresas (o conforto e a estabilidade nunca o permitiriam) que se tornarão, elas próprias, elementos centrais de toda esta discussão e que nos trarão a possibilidade, sempre bem vinda, de uma discussão / diálogo sobre e com as obras expostas.
ORG: Doutoramento em Artes Plásticas + i2ADS

 


8 junho a 27 julho 2019
Casa-Museu Abel Salazar
Inauguração 17:00

 

EXPOSIÇÕES ANTERIORES

Sopro

Mostra Curricular de Estúdio em Escultura. Mestrado em Artes Plásticas. 2.º semestre.


21 a 22 jul 2020
oMuseu

O avesso do avesso do avesso [do avesso]

O avesso do avesso do avesso [do avesso] é o título de uma exposição que começou há alguns meses no contexto do programa doutoral em Artes Plásticas da Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto.


/Online

revolver

detalhes da pesquisa de artistas investigadores do programa doutoral em Artes Plásticas da FBAUP


12 de set a 25 de out
Casa das Artes

 

SHIFT

Exposição de Finalistas de Design de Comunicação 2019/20


28 set a 02 de out
oMuseu

 

Vaga

Uma ocupação sonora e visual.


21 a 25 set
FBAUP

 

Com-Fim

Intervenção final dos estudantes de Projecto (Licenciatura em Artes Plásticas – Multimédia)


/Online

 

Intervalo — Antes e depois, o desenho

Exposição de Práticas de Desenho [Licenciatura em Artes Plásticas]


prolongada até 10 out 2020
Sala de Exposições Temporários do Lugar do Desenho

 

do it (home)

do it comissariada por Hans Ulrich Obrist e desenvolvida pela Independent Curators International (ICI), com curadoria local de Lúcia Almeida Matos e Inês Moreira, aconteceu no Pavilhão de Exposições da FBAUP no decorrer de Março a Junho de 2017. Uma exposição que contou com a colaboração de estudantes, docentes e restantes colaboradores da Faculdade, na interpretação de 23 instruções de artistas internacionais. Surge agora neste período de distanciamento social a do it (home) que convida a novas interpretações a serem realizadas por qualquer pessoa. #doitathome

Sonhos e Raciocínios — 500 anos depois de Leonardo da Vinci

A exposição Sonhos e Raciocínios explora cinco aspetos presentes no desenho do Porto — variante e variação, o gesto quotidiano, o gesto da escrita, mínimo e excesso, o olhar íntimo — em desenhos de várias épocas e autores que abrangem desde estudos precisos a lápis em pequeno formato até instalações de desenhos-performance.


17 out a 14 dez 2019
Pavilhão de Exposições

Leonardo da Vinci – O desenho do Porto

A obra de Leonardo da Vinci, Rapariga lavando os pés a uma criança, será exibida durante o dia 2 de maio, quando se assinalam os 500 anos sobre a morte do grande artista italiano.


2 maio 2019
11:00 às 20:00
Pavilhão de Exposições

Imagem / Técnica — Os inventários de Emílio Biel

Exposição dedicada aos álbuns fotográficos de grande formato que o fotógrafo, editor e empresário alemão publicou para a Associação dos Engenheiros Civis Portuguezes.


31 maio a 20 julho 2019
Pavilhão de Exposições
Inauguração 30 maio às 18:00

 

A partir do Antigo

A exposição refere-se a métodos de formação artística historicamente baseados na cópia de modelos clássicos. 


1 março a 20 abril 2019
Pavilhão de Exposições
Inauguração 28 fevereiro às 18:00

 

Japanese Design Today 100

Design Japonês Hoje 100


16 novembro a 15 dezembro 2018
Pavilhão de Exposições
Inauguração 15 novembro às 18:00

 

Histórias por contar

Elas: autoria & autoridade em questão


20 julho a 27 outubro 2018
Pavilhão de Exposições

Prata da Casa

É uma exposição organizada por André da Loba a convite do Clube de Criativos de Portugal que reúne 120 ilustradores, de diferentes gerações e diferentes áreas de formação – incluindo alguns estudantes e professores desta Faculdade.


16 setembro a 4 outubro 2019
Pavilhão de Exposições
Inauguração 16 setembro às 12:00

Mar Novo

A exposição apresenta e discute várias peças que constituíram o projecto vencedor nas suas múltiplas valências, integrando elementos originais da extraordinária proposta que Júlio Resende desenvolveu para este ambicioso projecto colaborativo de obra pública.


17 novembro 2017 a 3 março 2018
Pavilhão de Exposições

do it

do it é uma exposição itinerante concebida e comissariada por Hans Ulrich Obrist e organizada pelo Independent Curators International (ICI), Nova Iorque.

do it is a traveling exhibition conceived and curated by Hans Ulrich Obrist, and organized by Independent Curators International (ICI), New York. 


25 de março a 23 de junho 2017

Inauguração 24 de março às 18:00
Pavilhão de Exposições

doingit.fba.up.pt

ONZE SEGUNDOS SACÁDICOS

Exposição de Tomás Abreu


26 maio a 16 junho 2018
Galeria Painel
Rua das Taipas, 135 Porto
Inauguração às 17:00

As fotografias e o resto #4

As fotografias e o resto #4, patente de 18 a 25 de Janeiro de 2019 no Museu da FBAUP, é a quarta edição da exposição anual de estudantes de Práticas da Fotografia, reunindo trabalhos realizados nos anos lectivos de 2018/19.


18 a 25 janeiro 2019
oMuseu
Inauguração às 14:00

Encode / Store / Retain / Recall

Exposição dos estudantes finalistas da Licenciatura em Artes Plásticas — Multimédia da FBAUP


24 a 31 janeiro 2019
Palacete Pinto Leite
Rua da Maternidade, 3—9
Porto
Inauguração Quinta · 17:00

Tem de ser / Has to be

Exposição dos estudantes finalistas da Licenciatura em Artes Plásticas — Multimédia da FBAUP


31 maio a 7 junho 2019
oMuseu + Galeria do 1º andar
Inauguração · 17:00

Tubo de Ensaios 17_18

Mostra Curricular Atelier II Escultura 3º ano · LAP 2017/18


15 a 21 junho 2018
Vários espaços da FBAUP

Projeto Lab.25

Tendo como lugar de investigação o Palacete J. Narcizo D’Azevedo e a contígua Ilha e Fábrica Fogões Meireles, explora-se a sua relação temporal e espacial com a envolvente, reanalisa-se o espaço produzindo narrativas e situações poéticas. 


13 a 21 junho 2019
Galeria 1º andar

Acreção

Exposição de estudantes finalistas de LAP — Escultura


14 a 21 junho 2019
oMuseu
Inauguração 18:00

Tubo de Ensaios 18_19

Mostra Curricular Atelier II Escultura 3º ano LAP 2018/19


6 a 12 junho 2018
Vários espaços da FBAUP

As Fotografias e o Resto 3

As Fotografias e o Resto 3, é o título da terceira edição da exposição que apresenta os portfolios e projectos editoriais desenvolvidos em Práticas da Fotografia (Artes Plásticas).


24 janeiro a 2 fevereiro 2018
oMuseu
Inauguração 17:00