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A apologia da crise (sobre o desconforto da centralidade – agonia ou resistência)

A exposição que agora propomos para uma das possibilidades expositivas existentes na centralidade da cidade (central, também, pois é pertença da Câmara Municipal, isto é, o órgão de poder: o centro) mantém como subtítulo, à semelhança das anteriores, a palavra desconforto, acompanhada de duas noções essenciais às práticas artísticas: a agonia e a resistência. Só que, agora, trata-se, já não de um paradoxo como ficou estabelecido na exposição anterior, mas, antes, de uma condição de conflito.  

Sabemos que a arte entrou numa espécie de agonia criativa desde o aparecimento das chamadas vanguardas no início do século passado. Essa agonia, contudo, pode ser entendida como uma forma de resistência, pois afirma-se como o motivo que lhe dá a força para continuar. De agonia em agonia, a ruptura vanguardista traçou firme e decididamente o caminho para o centro. Podemos afirmar, com Hal Foster, que a centralidade da instituição museológica ocupa hoje não só o centro como as margens tentando, assim, aniquilar as possibilidades de lhe resistir. Refere o autor norte-americano com alguma ironia que se um museu quiser ser verdadeiramente contemporâneo terá de procurar nas margens aquilo que mais “alternativo” e inovador se está a fazer e, contudo, ao fazê-lo está a destruir a possibilidade alternativa pois trata-se, afinal, de uma expansão da centralidade a todo o território. Ao mesmo tempo, coloca em agonia a “causa alternativa” que o afastamento do centro permite.  

É com este panorama no horizonte que hoje temos que trabalhar, ao qual, teremos forçosamente que acrescentar a enorme energia da comunicação e dos media, nomeadamente digitais, na produção das imagens. Que, obviamente, contribuem, também, para a contínua agonia de que vimos falando neste texto.  

A centralidade da produção e divulgação das imagens encontra-se, então, nessa dupla condição, entre a comunicação e o Museu, sendo imensamente maior a força que emana a comunicação no seu todo, desde os media mais tradicionais até às chamadas redes sociais. Contudo, se a agonia se afirma de forma criativa, ela também possui a capacidade de resistir. Trata-se aqui de uma posição resistente à facilidade e à homogeneização. De uma resistência à homogeneidade binária (do código) transformada em imagens e que invade diariamente as nossas vidas. Trata-se de uma quase pandemia e, como tal, resistir é praticamente uma necessidade. Mas resistir não quer dizer optar pelo negativo do que temos estado a descrever. Não, a resistência, afirma a sua condição ao escapar às polaridades, ao enunciar possibilidades diferentes, ao produzir a singularidade da diferença (seja ela medial, significativa ou significante) perante a homogeneidade maquínica. Resistir que dizer, também, ter a consciência clara de que, pela primeira vez na história da humanidade, praticamente todas as áreas da vida (a arte incluída) são aparências da realidade camaleónica configurada pelos algoritmos eficientes dos códigos binários. É, no mínimo estranho, que a linguagem utilizada pelo sistema financeiro seja a mesma da arte... Mas não queremos gerar qualquer espécie de equívoco: trabalhar com as máquinas digitais faz parte do nosso dia a dia a par de todas as outras possibilidades. Não existe a crença no progresso medial nas práticas artísticas e, como tal, não existem medias obsoletos e, muito menos, medias mais avançados que outros. A este propósito o curador da Transmediale em Berlim e, também, ex-director do espaço V2 em Amsterdam, Andreas Broeckmann, num texto já com 10 anos, a pretexto de uma exposição intitulada Deep Screen – Art in Digital Culture e realizada no Stedelijk Museum refere: ”As the first generation grows up that has more intimate relation with the personal computer than with television, it will becomes less and less relevant to even distinguish between digital culture and contemporay culture in general”. Esta frase foi escrita há já uma década, o que quer dizer que este nosso presente vive a situação ali relatada de forma absolutamente radicalizada. Temos, portanto, que incorporar as possibilidades maquínicas digitais nos procedimentos que permitem, também, a resistência. Nada há de comum entre um vulgar vídeo ou imagem colocados no facebook, por exemplo, e uma obra visionada com o tempo e as condições espaciais necessárias. O écran é, por isso, mais um factor determinante da homogeneização: tudo é “visto” exactamente da mesma forma: um desenho, uma peça escultórica, uma pintura, um vídeo, etc., serão sempre visionados apenas como imagens digitais. E, por isso, também, perdem todas as suas singularidades matéricas e, por vezes, siginificacionais, esvaziados que são do seu valor simbólico aqui substituído, apenas, pelo valor da sua informação.  

A exposição que nos encontramos a preparar terá que reflectir em todas estas preocupações de forma individualizada e aprofundada. Antes de mais, porque se trata, também, de uma exposição de artistas/investigadores e essa condição não pode nem deve ser encarada apenas como forma semântica. A sistematização do pensamento que é operada no dia a dia de um artista/investigador permite-lhe um distanciamento da frivolidade e da facilidade com que são encaradas algumas obras artísticas com preocupações radicalmente diferentes. É aqui que se processa a ruptura entre uma arte que tem na origem procedimentos investigativos e a produção de imagens em que nos encontramos mergulhados e, quase, sufocados. Entre um Museu perto de ser transformado em empresa e uma resistência que lhe é possível colocar. Entre uma prática artística colada às regras neo-liberais do chamado mercado e obras resilientes às meras transacções comerciais. A uma imagética consumida instantaneamente pelo tempo e uma obra que pensa o tempo com tempo. De tudo isto se trata o investigar em arte, mas, também, das práticas artísticas mais capacitadas para colocar as questões que preocupam os artistas, de forma aberta e, contudo, sem qualquer intencionalidade (palavra exterior ao vocabulário artístico) de fornecer respostas.  

Uma arte que, por afirmar a sua singularidade comunicativa frente à homogeneidade do presente, é olhada com estranheza, mas é essa mesma estranheza familiar e, ao mesmo tempo, ameaçadora, como referia Freud, que lhe dá a sua identidade. Até hoje. Jacques Ranciére é um dos filósofos que já reflectiram sobre estes assuntos. Neste contexto, o seu pensamento afirma toda a sua força significacional, refere o autor francês: “Uma arte que se apresente como política deve conter, simultaneamente, a produção de um duplo efeito: a legibilidade de uma significação política e um choque sensível ou perceptivo causado, contrariamente, pelo uncanny, pelo que resiste à significação”.  

A agonia e a resistência são, por isso, formas singulares da arte se tornar política sem ser panfletária, de se oferecer à fruição sem exigir nada em troca.  

Afinal, de ser arte, só.  

E basta.

ORG: Doutoramento em Artes Plásticas + i2ADS

 


10 jan a 12 fev 2020
Palacete dos Viscondes de Balsemão
Praça Carlos Alberto
Inauguração 17:00

 

EXPOSIÇÕES ANTERIORES

Cartaz — para uma coleção de design

Exposição de cartazes comissariada por António Modesto, Luís Mendonça e Rui Mendonça.


14 fev a 11 abr 2020
Pavilhão de Exposições
Inauguração 13 fev · 18:00

Sonhos e Raciocínios — 500 anos depois de Leonardo da Vinci

A exposição Sonhos e Raciocínios explora cinco aspetos presentes no desenho do Porto — variante e variação, o gesto quotidiano, o gesto da escrita, mínimo e excesso, o olhar íntimo — em desenhos de várias épocas e autores que abrangem desde estudos precisos a lápis em pequeno formato até instalações de desenhos-performance.


17 out a 14 dez 2019
Pavilhão de Exposições

Leonardo da Vinci – O desenho do Porto

A obra de Leonardo da Vinci, Rapariga lavando os pés a uma criança, será exibida durante o dia 2 de maio, quando se assinalam os 500 anos sobre a morte do grande artista italiano.


2 maio 2019
11:00 às 20:00
Pavilhão de Exposições

Imagem / Técnica — Os inventários de Emílio Biel

Exposição dedicada aos álbuns fotográficos de grande formato que o fotógrafo, editor e empresário alemão publicou para a Associação dos Engenheiros Civis Portuguezes.


31 maio a 20 julho 2019
Pavilhão de Exposições
Inauguração 30 maio às 18:00

 

A partir do Antigo

A exposição refere-se a métodos de formação artística historicamente baseados na cópia de modelos clássicos. 


1 março a 20 abril 2019
Pavilhão de Exposições
Inauguração 28 fevereiro às 18:00

 

Japanese Design Today 100

Design Japonês Hoje 100


16 novembro a 15 dezembro 2018
Pavilhão de Exposições
Inauguração 15 novembro às 18:00

 

Histórias por contar

Elas: autoria & autoridade em questão


20 julho a 27 outubro 2018
Pavilhão de Exposições

Prata da Casa

É uma exposição organizada por André da Loba a convite do Clube de Criativos de Portugal que reúne 120 ilustradores, de diferentes gerações e diferentes áreas de formação – incluindo alguns estudantes e professores desta Faculdade.


16 setembro a 4 outubro 2019
Pavilhão de Exposições
Inauguração 16 setembro às 12:00

Mar Novo

A exposição apresenta e discute várias peças que constituíram o projecto vencedor nas suas múltiplas valências, integrando elementos originais da extraordinária proposta que Júlio Resende desenvolveu para este ambicioso projecto colaborativo de obra pública.


17 novembro 2017 a 3 março 2018
Pavilhão de Exposições

do it

do it é uma exposição itinerante concebida e comissariada por Hans Ulrich Obrist e organizada pelo Independent Curators International (ICI), Nova Iorque.

do it is a traveling exhibition conceived and curated by Hans Ulrich Obrist, and organized by Independent Curators International (ICI), New York. 


25 de março a 23 de junho 2017

Inauguração 24 de março às 18:00
Pavilhão de Exposições

doingit.fba.up.pt

ONZE SEGUNDOS SACÁDICOS

Exposição de Tomás Abreu


26 maio a 16 junho 2018
Galeria Painel
Rua das Taipas, 135 Porto
Inauguração às 17:00

As fotografias e o resto #4

As fotografias e o resto #4, patente de 18 a 25 de Janeiro de 2019 no Museu da FBAUP, é a quarta edição da exposição anual de estudantes de Práticas da Fotografia, reunindo trabalhos realizados nos anos lectivos de 2018/19.


18 a 25 janeiro 2019
oMuseu
Inauguração às 14:00

Encode / Store / Retain / Recall

Exposição dos estudantes finalistas da Licenciatura em Artes Plásticas — Multimédia da FBAUP


24 a 31 janeiro 2019
Palacete Pinto Leite
Rua da Maternidade, 3—9
Porto
Inauguração Quinta · 17:00

Tem de ser / Has to be

Exposição dos estudantes finalistas da Licenciatura em Artes Plásticas — Multimédia da FBAUP


31 maio a 7 junho 2019
oMuseu + Galeria do 1º andar
Inauguração · 17:00

Tubo de Ensaios 17_18

Mostra Curricular Atelier II Escultura 3º ano · LAP 2017/18


15 a 21 junho 2018
Vários espaços da FBAUP

Projeto Lab.25

Tendo como lugar de investigação o Palacete J. Narcizo D’Azevedo e a contígua Ilha e Fábrica Fogões Meireles, explora-se a sua relação temporal e espacial com a envolvente, reanalisa-se o espaço produzindo narrativas e situações poéticas. 


13 a 21 junho 2019
Galeria 1º andar

Acreção

Exposição de estudantes finalistas de LAP — Escultura


14 a 21 junho 2019
oMuseu
Inauguração 18:00

Tubo de Ensaios 18_19

Mostra Curricular Atelier II Escultura 3º ano LAP 2018/19


6 a 12 junho 2018
Vários espaços da FBAUP

As Fotografias e o Resto 3

As Fotografias e o Resto 3, é o título da terceira edição da exposição que apresenta os portfolios e projectos editoriais desenvolvidos em Práticas da Fotografia (Artes Plásticas).


24 janeiro a 2 fevereiro 2018
oMuseu
Inauguração 17:00

MAPEriférico

“MAPEriférico” apresenta-se como uma possibilidade de exposição das experimentações dos estudantes de Práticas de Estúdio e de Investigação-Escultura (2º ano do Mestrado em Artes Plásticas) durante o 1.º semestre do ano letivo 2019/2020. 


6 a 13 jan 2020
Galeria Cozinha

Entorno

Esta mostra reúne alguns dos trabalhos desenvolvidos pelos estudantes do 2º ano do curso de Mestrado em Artes Plásticas -Desenho.


11 jan a 2 fev 2020
AL589
Rua da Alegria, 859
Inauguração 17:00

Couve

Exposição dos estudantes finalistas da LAP – Multimédia – 1º semestre


28 a 31 jan 2020
FBAUP
Inauguração 17:00

É O Que É

Exposição dos estudantes finalistas da LAP – Escultura – 1º semestre


30 jan a 11 fev 2020
FAJDP – Casa das Associações – Rua Mouzinho da Silveira, 234/8, Porto
Inauguração 17:00

Novo Acordo

Novo Acordo é uma exposição coletiva realizada pelos estudantes de Mestrado de Artes Plásticas: Pintura, que pretende mostrar o trabalho desenvolvido pelos alunos de 1º ano de mestrado em estúdio de pintura e desenho.


21 a 27 fev 2020
oMuseu
Inauguração 17:00

Classificados

Exposição de Finalistas de Design de Comunicação 2018/19, tem como objectivo proporcionar uma reflexão crítica sobre o trabalho criativo desenvolvido pelos estudantes finalistas do 1º Ciclo de Estudos em Design de Comunicação da Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto. 


28 junho a 5 julho 2018
oMuseu
Inauguração 17:00