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“Partir”, Júlio Dolbeth e Mariana a Miserável


A proposta temática para esta exposição baseia-se na interpretação da técnica ancestral japonesa de reparar cerâmicas partidas, conhecida por Kintsugi. Não só as cerâmicas partidas são reparadas, como é usado pó de ouro ou prata no seu conserto. Esta forma de recuperação - realçando deliberadamente as cicatrizes - prolonga a vida destas peças, imprimindo-lhes valor e reforçando a sua beleza única através do erro ou do acidente.

Numa época onde o consumismo é privilegiado, o Kintsugi surge como um lugar de contemplação, de afirmação do belo, ancorado na história e nas narrativas possíveis que as peças cerâmicas têm para contar. Interessa-nos criar uma ponte entre o figurado tradicional português, em particular o artesanato da região norte de Portugal, referenciando nomes como Rosa Ramalho e a tradição cerâmica milenar japonesa.

Cada peça é única na forma como cai e se desfaz e cada “colagem” é um registo imprevisível do sucedido, uma surpresa absoluta que tem, simplesmente, de ser aceite como é. Ora, é impossível não tentarmos uma analogia entre esta arte japonesa e a vida humana no geral, no que diz respeito aos processos de aprendizagem: nós, pessoas, somos peças de porcelana, caímos, partimo-nos aos bocadinhos, aproveitamos o que resta, colamos os fragmentos, ficamos com cicatrizes. 

Nesta exposição propomos uma metáfora para a criação de trechos narrativos: as cerâmicas são ficções, são pessoas, são fragmentos biográficos. Através da lógica da técnica artesanal de recuperação reforçamos ligações e inventamos laços de união a emancipar significados. 

A ambiguidade do título, PARTIR, remete para a fragmentação em cacos, mas também para a viagem: partir como ida, como a procura de um lugar - neste caso um lugar emocional - onde as feridas são sanadas e transformadas em material visual através da ilustração.

"As peças em cerâmica apresentadas nestas exposição estão a ser trabalhadas desde Outubro de 2019 na Cooperativa Árvore. Além do necessário tempo de experimentação e aprendizagem, parte do processo o envio previo de algumas peças mal acondicionadas para a galeria Almost Perfect, em Tóquio de forma a que partissem pelo caminho. Para esta primeira mostra, as peças estão ainda intactas e podem ser resgatadas do seu destino. A exposição será complementada com alguns desenhos desenvolvidos recentemente com com esperança de que esta residência se complete com a sua componente japonesa.”

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*Âmbito: Residência artística e exposição “Partir” no Japão. Tem como principal objetivo criar pontes entre duas culturas tão tangenciais como Portugal e o Japão.

O programa Shuttle tem como principais objetivos promover internacionalmente a cultura da cidade e o trabalho de artistas, autores e agentes culturais sediados no Porto.
Esta iniciativa visa atribuir bolsas de apoio nas áreas de Artes visuais e curadoria; Artes performativas; Performance e composição musical; Tradução e criação literária e ensaística.

Projeto: Júlio Dolbeth e Mariana a Miserável
Almost Perfect - Tóquio
Senhora Presidenta - Porto