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Uma mão cheia de nada

E pur si muove

Há qualquer coisa de quixotesco e de absurdo nas escolas de arte. Trata-se de fazer escolas onde se pode ensinar tudo menos aquilo que seria suposto ensinar-se. Os modelos variam, mas, de um modo geral, o ensino das Belas Artes, como costumava dizer-se, dessas artes que se afirmam num singular (o da arte e já não o das artes), gravitam em volto do estúdio ou do trabalho de projecto. Tudo o resto são como que satélites que alimentam esse trabalho. 

No nosso contexto, um curso de Artes Plásticas é um percurso de vários anos que se faz coleccionando os créditos burocraticamente definidos nos planos de estudo oficiais. Somam-se créditos até se atingir um número mágico e abstracto de 60 créditos por ano, e que alguém menos conhecedor da complexidade do mundo fez corresponder a 27 horas de trabalho por unidade de crédito. Ninguém sabe muito bem explicar isto e julgo que ninguém acredita verdadeiramente nessa métrica. Entre muitos outros problemas, esse modelo resulta numa fragmentação da experiência dos estudantes, compartimentada artificialmente em Unidades Curriculares (eufemismo utilizado para designar as disciplinas), cada uma delas com o seu campo próprio de acção e a sua dose de especialização. Nesta forma de organizar as coisas, a burocracia reduz o trabalho de estúdio ou de Projecto a uma Unidade Curricular como as outras, o que não podia ser mais enganador. Com efeito, o trabalho realizado pelos estudantes ao longo do curso só circunstancialmente se pode dividir dessa forma. Trata-se antes de uma linha, com quebras e continuidades, avanços e recuos, que se vai idealmente desenhando como um percurso de consolidação de um universo próprio de pesquisa e trabalho, um projecto e não uma série de unidades fragmentárias, burocráticas e fechadas sobre si mesmas.

No entanto, a coisa move-se. Continuamos aqui, navegando no meio desses obstáculos e tentando criar um lugar fora do lugar. No limite, quando ano após ano começa o trabalho com os alunos de Projecto é sempre uma caixa vazia que espera por nós. Por um lado, encontramos o estúdio estranhamente limpo e vazio, à espera do que irá acontecer; por outro, não há um programa no sentido de um conjunto de expectativas que possam ser projectadas por antecipação. É a partir do primeiro minuto de trabalho que essa caixa começa a ser preenchida, com o primeiro corpo que a vem ocupar, com o primeiro gesto, objecto, som ou imagem que nela irrompam.

Com a obrigatoriedade do trabalho à distância, estes últimos dois anos vieram baralhar este enunciado. Preencher essa caixa tornou-se um processo mais lento e foi necessário lutar constantemente com a dificuldade de realizar um trabalho físico, plástico, experimental e que se deseja partilhado no tempo e no espaço diferidos que são os da mediação tecnológica. Faltou o acesso às oficinas e laboratórios, faltou o estúdio como um espaço de trabalho colectivo, faltou também experimentar e activar o trabalho realizado através da sua apresentação pública.

No início deste ano lectivo, tentando contrariar essas limitações e celebrar a deriva dos corpos e da imaginação, começámos justamente por vaguear em grupo pela zona oriental da cidade do Porto, à procura de qualquer coisa que não sabíamos muito bem o que seria. Essa experiência foi interrompida por novo confinamento, mas talvez alguma coisa tenha ficado dessas derivas livres pelas margens de uma cidade mais informal e esquecida.

Por todas essas razões, e apesar das limitações, a possibilidade de regressar finalmente ao trabalho em grupo e de voltar ao estúdio, ganhou uma outra importância. Tentou-se recuperar algum do tempo perdido e começou-se a pensar no final do ano e na apresentação do trabalho realizado.

Esta exposição, a primeira de várias outras, apresenta um conjunto de trabalhos dos finalistas de Artes Plásticas Multimédia, a que se somam dois convidados (João Lan Costa e Gonçalo Araújo). Resultado de um trabalho experimental e ainda em processo, esta exposição oferece-nos um panorama das possibilidades mediais da prática artística, de acordo com a abertura que caracteriza o ensino do Multimédia/Intermédia na FBAUP. 

O título escolhido pelos estudantes — Uma mão cheia de nada — evoca justamente a dificuldade em encontrar um corpo que defina o seu percurso ao longo dos quatro anos do curso, a intangibilidade de muitas das suas experiências e, sobretudo, a ideia de que será sempre necessário recomeçar do zero, uma e outra vez, agora e depois.

 

Miguel Leal
Maio de 2021

 

Participantes:
Maria João Carvalho
Camila Christie
Cinsa
Cátia Domingues
Maria Freitas
Bruna Gomes
Leonor Guimarães
Tomás Licenciado
Rafaela Lima
Sofia Monteiro
Yasmine Moradalizadeh e João Lan Costa
Adriana Matos
Adriana Nóbrega
Guilherme Oliveira
Sofia Oliveira
Íris Pereira
Vasco Pereira
Mariana Pinto
Sofia Rocha
Maria Rosas
Beatriz Sarmento e Gonçalo Araújo


1 a 4 jun 2021
oMuseu, Galeria Cozinha e Pavilhão Central
Abertura · 1 jun · 14 às 18 horas

CONFERÊNCIAS ANTERIORES

Pensamento e Catástrofes

Ao longo de três dias, autores, ^lósofos e artistas reúnem-se para, não apenas debaterem as possibilidades de compreendermos as catástrofes, como também – no dizer de Jean-Luc Nancy – enunciarem algo do «pensamento como catástrofe».
http://pensamentoecatastrofes.up.pt


18 a 20 maio 2017

Processos de transformação no Ensino/Aprendizagem em Arte

Alexandre Alves Costa, Anni Ghunther Nonell, Domingos Tavares, José Paiva, Mário Bismarck, Miguel Leal, Rui Braz Afonso, Sérgio Fernandez e Estudantes da UC optativa do MIARQ/FAUP – Arquitectura: processos de transformação no ensino/aprendizagem


5 e 6 julho 2018
Sala 13A Pavilhão Sul e Auditório do Pavilhão Carlos Ramos

Apresentação Pública da Bienal BoCA

A BoCA – Biennial of Contemporary Arts é uma nova bienal de artes contemporâneas que tem a sua primeira edição entre 17 de março e 30 de abril de 2017, nas cidades de Lisboa e Porto.


10 fevereiro de 2017 · 17:00
Aula Magna

A Aura da Imagem

Sessão organizada a propósito da apresentação do 1º número da publicação SOPHIA “Crossing Borders,Shifting Boundaries, The Aura of The Image” 


30 novembro 2017 · 17:30
Auditório Pavilhão Sul